Transformando o lixo em adubo

Projeto revolucionário a ser desenvolvido em Franca proporcionará melhorias ao meio ambiente

José A. Souza/DF

Franca poderá ser a primeira cidade do país a ter seu lixo (industrial e orgânico) transformado em adubo em 100%. Essa é a proposta da professora e doutora em química, Joana D’Arc Félix de Sousa. Considerada uma das mais importantes personalidades por ter desenvolvido pesquisa de reaproveitamento de resíduos de curtumes e orgânicos, Joana D’Arc tem um desafio: colocar em prática o projeto e beneficiar o meio ambiente. A proposta, que tem autorizações ambientais, é assediado por multinacionais e outros municípios.


O trabalho de Joana D’Arc, que é natural de Franca, tem 30 anos, de origem de família humilde (seu pai, já falecido, trabalhava em curtume e a mãe era empregada doméstica e lavadeira de roupas), deverá ser instalado por etapas e promoverá uma revolução na área de preservação ambiental, avaliou o promotor de Justiça, Fernando de Andrade Martins, que ao lado dos secretários Sebastião Ananias (Gestão Econômica e Planejamento) e Ismar Tavares (Serviços e Meio Ambiente) acompanharam os primeiros ensaios no Colégio Técnico Agrícola.


Joana possui graduação, mestrado e doutorado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pós-doutorado pela Harvard University (Cambridge/MA/USA). E durante seus estudos um fato marcou sua vida. A diretora da escola aonde estudava em Franca, durante uma reunião escolar, teria discriminado os alunos mais pobres até afirmou em tom de insulto de que ninguém ali seria alguém na vida. “Eu pensei. Vou mostrar prá ela que a vida não é assim e vou me dedicar ao máximo para representar minha cidade”, disse.


E sem jamais abaixar a cabeça e com um propósito de vida tornou-se uma pessoa de destaque. Depois de muita persistência, desafios e luta Joana tem no currículo um Phd em Química na Universidade de Harvard. E graças a seus estudos, Franca poderá se tornar, além de ser a principal cidade da América Latina em ter 100% no tratamento de água e esgoto, a recuperação total do lixo produzido. Acompanhe a entrevista.


Diário da Franca: Como surgiu essa proposta de criar método para transformar o lixo em adubo?

Joana D’Arc Félix de Sousa: Quando me convidaram para fazer o Pós-Doutorado na Universidade de Harvard (EUA) na área de Meio Ambiente, sugeriram que levasse um problema brasileiro. Como meu pai sempre trabalhou em curtumes (aproximadamente quarenta anos), conheço muito bem curtumes e os resíduos gerados. Então o objetivo da pesquisa foi estudar o reaproveitamento de resíduos classe 1 de curtumes. Após quatro meses de pesquisa, o orientador sugeriu para os seus alunos o estudo de vários outros tipos de resíduos. Este outro estudo teria que ser desenvolvido concomitante à pesquisa que cada aluno já estava desenvolvendo. Como ninguém se interessou pelo lixo doméstico, resolvi estudá-lo. No final da reunião o orientador me parabenizou dizendo que eu havia feito a escolha correta.


Diário: Em quanto tempo você desenvolveu essa pesquisa?

Joana D’Arc: A pesquisa de reaproveitamento do lixo doméstico foi desenvolvida em 14 meses e recebeu o nome: “Transformação do Lixo Doméstico em Fertilizante N-P-K Via Processos Dra. Joana Félix”. Vale ressaltar que se trata de um fertilizante mineral e orgânico. (N = Nitrogênio; P = Fósforo; K = Potássio)


Diário: E como foi chegar à essa fórmula sem prejudicar o meio ambiente?

Joana D’Arc: Chegamos à fórmula final: FERTILIZANTE N-P-K + MATÉRIA ORGÂNICA após muito estudo e muitos testes em laboratório. A maior preocupação era a total eliminação dos metais pesados presentes no lixo doméstico, como é o caso dos resíduos contendo cromo (artigos em couro, diversos tecidos, plásticos, etc.); dos resíduos contendo chumbo (baterias); dos resíduos contendo mercúrio (lâmpadas, pilhas, couros, tecidos, acessórios metálicos de vestuários, etc.); resíduos contendo cádmio e zinco (baterias, pilhas, filmes fotográficos, etc.); dos resíduos contendo níquel, antimônio, bário e selênio (pilhas, plásticos, acessórios metálicos de vestuários, etc.). Esses metais pesados são cancerígenos, mutagênicos e alérgicos. Uma vez degradados no solo, estes metais pesados permanecem e podem ser absorvidos por plantas que posteriormente servirão de alimento diretamente ao homem ou a animais, podendo por este caminho também atingir o ser humano.


Diário: Na sua visão, qual a vantagem que seu projeto traz para as futuras gerações?

Joana D’Arc: É a extinção do passivo ambiental e dos riscos à saúde humana, ou seja, é a eliminação da contaminação dos solos e do lençol freático pelos contaminantes (metais pesados) presentes no lixo doméstico. A extinção de lixões e aterros sanitários acaba com a poluição ambiental como exemplo do chorume que se infiltra no solo contaminando o lençol freático, rios, mananciais, praias, ar, plantas, etc. Como esse projeto permite reaproveitar o lixo já aterrado, sugere-se que a área até então ocupada pelo aterro, seja utilizada para a construção de casas populares, resolvendo assim mais um problema de moradia.


Diário: Você desenvolveu esse método sozinha ou teve auxílio de outras pessoas?

Joana D’Arc: Apenas o apoio do meu orientador americano.


Diário: E como é implantar esse projeto - recuperar o lixo, sem prejudicar o meio ambiente. Já existe interesse público nesta ação?

Joana D’Arc: O Projeto é simples e fácil de ser implantado e não gera gases e vapores tóxicos. A grande responsável pela transformação do lixo doméstico em fertilizante são as enzimas desenvolvidas no pós-doutorado. Essas enzimas são absolutamente inócuas para aqueles que as manuseiam, para a saúde pública e para o meio ambiente. Sim já existe interesse da prefeitura de Franca, onde iniciaremos um trabalho de teste. Também já foi realizado um teste na cidade de São Manuel/SP onde o Senador Eduardo Suplicy esteve presente. Também para conhecer o processo, estiveram em Franca representantes das prefeituras de Ribeirão Preto/SP e São Sebastião/SP. Na região de litorânea de São Sebastião o lixo doméstico é aterrado a um valor de R$ 600,00/Tonelada.


Diário: Como foi apresentar o projeto à prefeitura de Franca e qual foi a aceitação? E como estão as discussões para a implantação?

Joana D’Arc: A apresentação do projeto foi realizada na ETE Prof. Carmelino Corrêa Júnior - Centro Paula Souza (Colégio Agrícola), onde sou professora do Curso Técnico em Curtimento. A aceitação foi muito positiva e já estamos acertando os detalhes para a realização de um trabalho de teste.


Diário: Esse projeto foi espelhado em outras ações desenvolvidas em países de primeiro mundo. Como foi essa questão?

Joana D’Arc: Esse projeto não foi espelhado em outras ações desenvolvidas em países de primeiro mundo. Ele foi sugerido pelo meu orientador Joseph Abramovitch e os resultados obtidos, após os 14 meses de pesquisa, são inéditos no mundo inteiro.


Diário: O projeto será em várias etapas e como a população poderá colaborar?

Joana D’Arc: A população poderá colaborar, reciclando melhor o seu lixo.

Atualmente Franca gera em torno de 200 toneladas de lixo doméstico/dia, e cerca de 100 toneladas de resíduos industriais/dia. Todos eles são destinados para o aterro de Franca, exceto o lodo de cromo, gerado nos curtumes, que é destinado para o aterro de Tremembé/SP. Tanto o lixo doméstico como o lixo industrial são muito ricos, porque os subprodutos resultantes possuem alto valor no mercado mundial, pelo fato de serem equivalentes aos existentes no mercado.


Diário: Você possui apenas esse projeto (pesquisa) ou existem outros semelhantes que podem beneficiar o meio ambiente?

Joana D’Arc: Tenho outros projetos que também foram desenvolvidos no meu pós-doutorado. Todos eles visando a total eliminação da poluição ambiental causada pelos metais pesados, ou seja, a extinção dos riscos à saúde humana através da eliminação da poluição dos rios e mananciais, lençol freático, solo, ar, e outros. Repetindo, esses metais pesados são cancerígenos, mutagênicos e alérgicos. São eles: “Reaproveitamento de Resíduos Classe 1 de Curtumes, Fábricas de Calçados e Artefatos” - Trabalho premiado por duas entidades: a) 1° Lugar no I Prêmio Couromoda de Boas práticas Socioambientais no Setor Coureiro-Calçadista na Categoria Inovação em Produto - São Paulo/SP (Janeiro/2008). b) 1° Lugar no Prêmio Inovação Científica e Tecnológica 2002 da International Science and Engineering Fair, Louisville/Kentucky/USA (maio/2002) e “Reaproveitamento de Resíduos Classe 1 das Indústrias de Galvanoplastia”


Diário: A importância desses projetos tem despertado interesses de grandes laboratórios e até mesmo países desenvolvidos?

Joana D’Arc: Sim. O projeto de transformação do lixo doméstico em fertilizante N-P-K tem despertado o interesse de grandes laboratórios porque atualmente o Brasil importa 80 % de todo fertilizante utilizado em território nacional. O projeto de reaproveitamento de resíduos classe 1 de curtumes, fábricas de calçados e artefatos está sendo negociado com uma grande multinacional. A Itália também já solicitou esses projetos através de seu consulado no Brasil.


Diário: Você se considera uma pessoa vitoriosa por ter desenvolvido essas pesquisas?

Joana D’Arc: Sim, eu me considero uma pessoa vitoriosa principalmente pelo fato de que os resultados obtidos com o reaproveitamento dos lixos doméstico e industrial deixam contribuições para a saúde humana, o meio ambiente e o setor industrial, pois ocorre uma diminuição ou extinção da poluição gerada pelo lixo e seus contaminantes.


Diário: O que pode ocorrer ainda para elevar a qualidade de vida da pessoas na sua visão?

Joana D’Arc: Os projetos de reaproveitamento dos lixos doméstico e industrial contribuem para o controle de zoonoses, além de funcionar como medicina preventiva através da eliminação de doenças com origens desconhecidas. Doenças estas oriundas da poluição dos rios e mananciais, lençol freático, solo, ar, e outros.

Os projetos também contribuem para a geração de emprego e renda.


Diário: As empresas deveriam se preocupar com o meio ambiente?

Joana D’Arc: Sim, porque o lixo industrial aterrado é um passivo ambiental que continua sendo de responsabilidade da empresa geradora. Reaproveitando os seus resíduos, o empresário ficará livre do passivo ambiental, dos custos de transporte e da disposição de seus resíduos, tornando a indústria mais competitiva.


Diário: A legislação é rigorosa nessa questão e o que precisa avançar no seu ponto de vista?

Joana D’Arc: Sim, em se tratando de meio ambiente, a legislação atual é muito rigorosa e as multas são altíssimas para quem poluir o meio ambiente. No meu ponto de vista deveria ser realizado um trabalho mais amplo de educação ambiental através dos veículos de comunicação, porque a maioria da população não destina o lixo, apenas se livra dele.


Diário: E nesse trabalho você possui licença de órgãos ambientais para realizar o processo?

Joana D’Arc: Os projetos desenvolvidos possuem licença da CETESB e do IBAMA.


Diário: Essa é uma vantagem muito grande?

Joana D’Arc: Sim, porque a transformação do lixo doméstico em fertilizante N-P-K via processos Dra. Joana Félix, com total eliminação dos contaminantes (metais pesados) presentes no lixo, não se trata de compostagem e sim de um processo que proporciona o fim da poluição gerada pelo lixo doméstico, acabando assim com os aterros sanitários, lixões, áreas de compostagem e principalmente com o chorume. Em outras palavras: acaba com a poluição dos rios e mananciais, lençol freático, solo, ar, etc. No caso dos aterros sanitários, este pode ser extinto ou ter um maior de vida (tempo de vida é cerca de 20 a 25 anos). A transformação do lixo doméstico em fertilizante N-P-K (produto sólido) ocorre num período de cinco horas, com a redução de 90 a 92 % do lixo doméstico, restando apenas de 8 a 10 % de fertilizante N-P-K + matéria orgânica, sem mau cheiro. O único resíduo resultante deste processo é a água (cerca de 90 a 92 %). Como essa água é rica em nutrientes N-P-K, ela também pode ser utilizada como fertilizante ou reaproveitada nos próximos processos em substituição à água.




Frases


“A extinção de lixões e aterros sanitários acaba com a poluição ambiental, como exemplo do chorume”



“ Franca gera em torno de 200 toneladas de lixo doméstico/dia e cerca de 100 toneladas de resíduos industriais/dia”


“A legislação atual é muito rigorosa e as multas são altíssimas para quem poluir o meio ambiente”

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Tags: adubo, franca, lixo

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